Entrevista com Zumby – Banda Nomes Feios

Entrevista concedida em 2010 para o Jornal Ocidental.

Marcelo "Zumby" Costa
Marcelo “Zumby” Costa

Quando ouvi falar pela primeira vez dos Nomes Feios, isso foi em 1989, 1990, quando ainda era um jovem esfarrapado e revoltado, que se vestia mal para impressionar pior ainda as pessoas, imediatamente percebi que o nome da banda caía como uma luva para aqueles caras, pois essa era a intenção com certeza.

Embora gostasse de Funk e Soul, também tinha (ainda tenho) uma atração por Rock. Afinal são estilos quase idênticos no que diz respeito à atitude, comportamento e musicalidade. Cheguei a ir a alguns shows e festivais na Cidade, onde as primeiras bandas se apresentavam. Na primeira vez que os vi, não

tocar, mas avacalhar um dos tradicionais concursos de dança da cidade, vi uma cena que jamais vou esquecer. Testemunhei meu primeiro Mosh (gesto de se atirar de cima do palco, em cima do público). Marcelo “Zumby” foi o autor da proeza. Depois de várias risadas minhas, lembro de ter pensado: “esse cara tem atitude. E coragem”. É com esse lendário corajoso, que atende por Marcelo Ângelo, 39, Estatístico formado na UnB que conversamos hoje.

 

Jornal Ocidental: Quando começou essa história de Rock na Cidade Ocidental, antes dos Nomes Feios qual era a cena e o que os influenciaram a criar a banda?

Zumby: Antes de ter a banda de rock, nós tínhamos o Grupo Subúrbio, que pelo nome já dá pra perceber um toque de revolta. A mãe de um colega nosso falou que era um nome muito feio para a nossa turma e que deveríamos colocar algo do tipo Grupo Magnatas (Risos) – quem tinha dinheiro nessa época (Risos)? Nesse grupo fizemos escola em organização, rolava muita festa, muito Funk, sim nossa base era o Funk (dançando toda noite no vem viver) – Michael Jackson era demais, fusão Rock e Funk, até porque Rock era coisa de maloqueiro, ops! Quis dizer metaleiro. Como de grupo de dança a gente virou uma banda de Rock? Em 1985 fui estudar no Elefante Branco, conheci muitoooooooos loucos do rock, inclusive, um dos melhores amigos, do meu primeiro ano, era um Marcelo Skatista que ouvia muito Punk Rock e arranhava um violão. Outro colega meu era metal puro sangue, Neto Motorhead era baterista e vivia batendo em tudo quanto era lugar possível, Outros tocavam violão no intervalo e desse caldeirão surgiram algumas influências novas e um estilo de vida associado, do radicalismo do skate, das primeiras produções do Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude, que atiravam para o mesmo lado. Sentimos na pele os gritos que ecoavam em São Paulo, ao som de Cólera (N.E.: um dos primeiros grupos brasileiros de punk rock, formado em São Paulo, nessa época já fazia show na Europa), Ratos de Porão, Não Religião, Caos 64, muitas bandas fora do mainstream, mas tocou os nossos corações e mentes para uma realidade de contrastes que vivíamos na época… era um Subúrbio contra os Magnatas. Cidade Ocidental contra Plano Piloto. Extremos mas com dignidade. Tratar bem as pessoas indiferentemente da sua pele, raça, dinheiro, roupa, posição… O rock de protesto surgiu como uma saída, um caminho para tentar mudar o mundo. Desde o dia em que o Badaró (irmão do Chico, vocalista da banda) trouxe uma fita demo do Legião Urbana (músicas do que seria o primeiro LP) nunca mais fomos os mesmos!

JO: Quem fazia parte da formação original?

Z: Marcelo (Zumby) na guitarra, Francisco Porto (Binho/Chico) no baixo, Demilson (Gripho) na bateria e Niltinho (Batata) nos vocais. Depois o Niltinho virou o irmão Nilton Batata e ficou famoso com Noites Traiçoeiras (N.do E.: Nilton é membro fundador da banda católica Romanos e Noites Traiçoeiras, música de maior suceso da banda). Mas antes do Batata sair da Banda a gente teve outro baterista antes disso: Renato Digão que está na gravação da nossa 1ª demo tape.

JO: Como conheceu os membros da atual formação banda?

Z: Podemos dizer que o Peewee era o irmão mais novo que nos acompanhava pra todo lugar, acabou “dançando” e tento que tocar com a gente. O Kalunga era da banda do Rogério Peewee, foi quase natural já era da turma. O Rock sempre aglutina as pessoas. O Binho desde moleque. Único Botafoguense da rua como eu, foi atração rápida. Jogando bola na rua. No campo. Ganhando títulos com o AJAX (time que formou gerações de atletas, do legendário Carlos Pança).

JO: Qual a origem do nome da banda e de onde veio seu apelido?

Z: O nome da banda veio de um brainstorming na praçinha da SQ11. Surgiram muitos nomes, cada nome que a gente ia elencando era feio. Não queríamos pensar tanto e no final chegar alguém e dizer que o nome era feio. Quando o Binho olhou pra lista e pensou: “putz, mas só tem nome feio!” Clic! É isso! “Nomes Feios” ainda rola um trocadilho com palavrão! Cara, o Zumby veio numa época em que todos colocavam apelidos em todos. Aí o Chacrinha que não podia ver uma coisa preta que me botava um novo apelido, assistiu o filme Quilombo dos Palmares e falou que eu era parecido com o Zumbi dos Palmares, aí pegou e eu abracei a idéia.

JO: O que mudou na cena cultural da cidade quando os NF apareceram?

Z: A Ocidental sempre foi carente de tudo. Primeiro se estabilizou no esporte através do futebol e no vôlei. Podemos dizer que sempre estava beliscando títulos no Entorno. Mas culturalmente não tínhamos nada. Existia um projeto do finado Ademar (N. do E.: proprietário do Clube Vem Viver) que tocava covers (e nos ajudou bastante no início – ”o buraco do Ademar era lindo” – música da 1ª demo tape). Uma outra banda que surgiu na nossa época era o Corista do Rock (o PPP tocava nela), mas não tinha uma cena. Aprendemos no grito e na raça e ensinamos muita gente também. Podemos dizer que nessa época muitas pessoas foram em busca de seus instrumentos para buscar espaço. Banda na Ocidental era o Squema Seis e olhe lá. (Risos pra caramba, pois o Squema Seis nem era da Ocidental).

JO: Vocês já fizeram shows em inúmeros locais. Já viajaram a muitas cidades do Brasil fazendo shows. Tem algum “causo” para contar de uma dessas turnês?

Z: Temos vários casos engraçados. Nós já tocamos em Miracema do Norte, uma cidadezinha pacata, de um certo caminhoneiro famoso por suas escapadas, e nesse dia nós éramos a atração principal da cidade na abertura da temporada de praia, com entrevista pra TV e Rádio ao vivo pro estado do Tocantins… rsrs imagina a cena… Parecida com aquela do festival de dança.

Foi engraçado tocar “estou a dois passos, do paraisoooooo” em Punk Rock Style com o Lucky nos vocais soltando cada agudo. E a molecada do estado (sim estado, porque foi roqueiro de tudo quanto é cidade) alucinando e festejando demais.

Em São Paulo participamos de festivais, dormimos em ginásios com outras bandas, a prefeitura da Ocidental nessa época ajudou bastante com passagens. Festivais grandes em Brasília, Goiânia, Rio de Janeiro e no Paraná. Bons tempos.

Se perguntar pro Binho ele vai lembrar muitas coisas comédias…

JO: Falando no Binho (Chico), tempos atrás, em outro governo, ele esteve à frente da atual Superintendencia de Cultura da cidade. O que falta para que a cultura ocidentalense seja tratada como prioridade, a exemplo de outras cidades com vasta atividade cultural?

Z: Essa é uma pergunta muito boa, estou afastado da cidade há bastante tempo, sinto muita saudade. Mas é preciso que o Prefeito se conscientize que produzir cultura é barato e gera retorno. Bem Social. Bem Estar Social. Uma criança produzindo, texto, música, peça, vale por mil que estejam fumando, cheirando, traficando… Abrem portas, caminhos, oportunidades. E com tão pouco. Um professor de música consegue formar quantos músicos numa cidade? Um teatro pode montar até quantas peças num ano? O que eles precisam entender que a cidade vira um pólo turístico. Na nossa época produzimos muitos shows no braço, saindo na rua de estabelecimento em estabelecimento pedindo ajuda para pagar a aparelhagem de um show. No final todos ganhavam. Ganhavam os músicos porque podiam se apresentar. Ganha o dono do espaço (muitas vezes cedido em troca da venda no bar). Os patrocinadores eram divulgados por toda a cidade. E ainda trazíamos muitas pessoas e bandas de fora. Já fazíamos parte da rota do rock. Era uma cidade reconhecida pela sua produção e suas obras. NOMES FEIOS (Punk Rock) e MANTRA (Heavy Metal) foram expoentes nessa época.

JO: Vocês acumulam experiência e talento musical inestimável. O NF pretende passar esse conhecimento adiante para os jovens da cidade, através de oficinas?

Z: De fato, foram muitos anos e os frutos continuam sendo gerados e acredito que por gerações ainda vai ter um dedo dos Nomes Feios por aí. Vejo o Entorno ainda efervescendo. A idéia de oficinas é muito interessante principalmente se voltarmos ao que eu tinha falado anteriormente sobre um Curso Municipal de Música. Seria um enorme prazer participar de oficinas variadas. Como produzir shows. Faça Você Mesmo Do It Yourself, lema punk dos anos 70). A Música é expressão da alma e de sentimentos. Ela une e cria cidadãos melhores. Mas como toda ferramenta pode ser usada para o bem e para o mal. As DROGAS são o principal inimigo. Há quem ache que não! Mas nós sempre fomos contra e vamos lutar até o fim para que formemos cidadãos conscientes e sociedades melhores. É triste ver que estamos criando sociedade canibalista e de oportunistas. Não gera trabalho. Gera facilidade e encurta caminho, vidas.

JO: Como está o panorama do Rock do DF e Entorno? Alguma crítica?

Z: Olha, há bastante espaço para quem quiser se aventurar, porque os principais desbravadores me parecem meio cansados da luta. Mas acredito que é o mesmo cenário, diria até melhor do que aquele que encontramos anos atrás, porque fazer Rock num país que era recém saído de uma ditadura, não era fácil. Hoje existe massa crítica. Falta alguém acreditar no seu trabalho e correr atrás. Fazer diferente. Trabalhar. Estudar muito e trabalhar.

JO: Você é pai de três filhos. O que precisa ser feito para tirar essa juventude do ócio característico de cidades com a Ocidental, onde as más influencias se sentem a vontade para atuar?

Z: Somente com atividades. Esporte e Lazer é o melhor caminho, porque integra e diverte. É preciso dar mais atenção a estas áreas porque a gente não quer só comida! Nós queremos um Robinho ou outro Rogerinho, nós Queremos um Renato Russo ou um novo Batata, Zumby, Binho. Alguém que encare a realidade difícil e torne o caminho mais honroso e gratificante com arte e atitude. AS PORTAS CONTINUAM ABERTAS. KNOCK, KNOCK, KNOCK.

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