Cultura não se manifesta?

Um viajante do tempo, que pudesse trafegar pelos buracos de minhoca e dobras do espaço-tempo (leia as teorias de Stephen Hawking em seu livro O Universo numa Casca de Noz) ficaria surpreso em verificar que o brasileiro tem realmente a memória curta e parece não aprender com os erros e acertos do passado.

Poucas décadas atrás, quando vivíamos em uma ditadura militar (regime autoritário que governou o país de 1º de abril de 1964 até 15 de março de 1985), milhares de estudantes foram às ruas clamar por democracia. Foram brigar por eleições diretas, pelo direito de escolher seus representantes, pelo direito de derrubar presidentes e contra a censura. Para que pudéssemos nos expressar livremente e nos desenvolver enquanto sociedade, todo o movimento cultural brasileiro de então, foi às ruas protestar. A Candelária ficou cheia de cantores, cantoras, atores, atrizes, artistas plásticos, enfim, toda a classe artística botou a boca no trombone, quando o regime militar passou a censurar peças inteiras, filmes, novelas, livros, músicas, marchinhas de carnaval, revistas, jornais e tudo o mais que pudesse criticar o sistema altamente opressor.

Chico Buarque, ao contrário de Gil e Caetano, preferiu não se exilar e produziu obras que primavam não apenas pela musicalidade, mas pela ciência utilizada na hora de compor letras que enganassem a censura e passassem mensagens cifradas aos ouvintes. Desnecessário dizer que a década de 1970 foi a mais inspirada e prolifica artisticamente para artistas como Chico. Nesse caso, a opressão serviu como inspiração para esses guerrilheiros da arte.

E hoje? Milhares de jovens de classe média, universitários em sua maioria, saíram às ruas de Sampa para protestar a favor do passe livre. Deu-se inicio a inúmeras manifestações em todo o Brasil. Pelas redes sociais e sites de noticias vimos alguns artistas globais com cartazes “protestando”. Será mesmo? Pela ínfima quantidade de artistas que divulgaram suas fotinhas com suas cartolinas Instagram afora, pareceu-me estratégia de marketing para aproximar os deuses do Olimpo dos mortais.

E os movimentos culturais como um todo? Onde estavam? Onde estava aquele Espirito de 64? Onde estavam os cantores de Axé, Pagode e Sertanejo? Essa luta não é deles? Ah, esqueci, eles não andam de ônibus. Onde estavam então os Rappers, Breakers e Graffiteiros? Só vi pichadores, esses eram onipresentes. Não vi ninguém da CUFA com cartazes na Avenida Atlântica. Claro que não, senão o Governo Federal mandava cortar a mesada paga há anos.

O movimento negro soltou notas onde afirmava que tais manifestações não o representavam! Parece brincadeira, mas a falta de sintonia era gritante. Um movimento legitimo de reinvindicação que beneficiaria a grandes parcelas da população e havia gente querendo setorizar a coisa. O momento era perfeito para a adesão de todas as classes historicamente discriminadas. Afinal, não era apenas por R$ 0,20.

Nos Estados Unidos, durante as manifestações pelo fim do racismo, encabeçadas pelo Dr. Martin Luther King, na década de 1960, TODOS os artistas negros aderiram aos protestos. TODOS os artistas negros e vários brancos por anos (e até hoje) compõe músicas de temática anti-racista e de enaltecimento do povo negro e uma demonstração de total adesão ao movimento. James Brown chegou a impedir que fãs mais afoitos, durante um de seus shows em Boston entrassem em conflito com a policia local e destruíssem a cidade em 1968. O momento era de tensão na América, tal qual vivemos hoje. Várias cidades haviam sido vandalizadas, saqueadas, pessoas presas e até mesmo mortas em virtude do assassinato do reverendo Dr. Martin Luther King. Tropas federais protegiam algumas cidades. Até hoje o episódio é tema de estudos e documentários (procure no Youtube por “The Night James Brown Saved Boston”).

Não quero aqui dizer que nenhum artista estava presente aos protestos no Brasil, mas sim, cobrando uma atitude dos movimentos culturais enquanto grupo, enquanto movimento unido em torno de uma bandeira. A do Brasil.

Isso vale para Cidade Ocidental também. O que começou como uma bela iniciativa nas redes sociais, arregimentando todos os descontentes em relação à atual administração municipal, ao monopólio da poderosíssima Vian e à incompetência da Saneago, não abrangeu o setor de cultura da Cidade Ocidental, totalmente desacreditado frente à atual gestão. Onde estavam os capoeiristas, os mesquitenses que produzem a marmelada, os dançarinos de Break, os skatistas, grafiteiros, o pessoal da cavalgada e outros representantes de tantas agremiações culturais, bastante prolificas em um passado não muito distante? Não se sentiram representados também?

Movimentos sociais e culturais não têm dono: pertencem ao povo! Representem-se!

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2 comentários em “Cultura não se manifesta?

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  1. Republicou isso em Larry Be Happy!e comentado:
    André, a série de ausências artistas as quais você muito bem elencou não são mais vetores do processo social, assim como foram no passado próximo. Os movimentos sociais e artistcos de hoje são resultado, fruto, dos processo politico-economico.no qual o mundo todo padece. E como tal não podem se manifestar contra a cerne da sua propria criacao.

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  2. Andr, a srie de ausncias artistas as quais voc muito bem elencou no so mais vetores do processo social, assim como foram no passado prximo. Os movimentos sociais e artistcos de hoje so resultado, fruto, dos processo politico-economico.no qual o mundo todo padece. E como tal no podem se manifestar contra o cerne da sua propria criacao.

    LARRY MELLO MULTIPLICAR http://www.multiplicar.com.br Consultor de Comunicao larry.mello@multiplicar.com.br (61) 8114-3007

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