Rapto (Repost)

Rapto

Raptados da Africa
Raptados da Africa

A última coisa de que me lembro, é de que estava à beira do rio. Estava bebendo água, depois de um dia cansativo de colheita. Toda a tribo estava voltando para a aldeia e resolvi me afastar para saciar minha sede. Acho que meu erro foi esse. Meu pai já havia me avisado, quando era pequeno, para tomar cuidado com aqueles homens estranhos. Poucos de nossa tribo haviam sobrevivido para contar como eles eram. Mas uma coisa era certa: sempre que eles apareciam, alguém desaparecia.

Devia ter levado em conta o cheiro estranho que senti. Era um cheiro diferente dos outros cheiros. Dos cheiros dos animais que conhecia. Mas já era tarde demais. Cobriram minha cabeça e deram várias pancadas. Com certeza eram muitos. Quando acordei parecia que ainda estava desmaiado, tamanha era a escuridão. Mas havia algo que não me deixava esquecer que estava acordado: o fedor de fezes, de urina, os gemidos – dos muitos outros que estavam na mesma situação que eu – e as dores que sentia pelo corpo todo. Meus pulsos e minhas pernas estavam fortemente presos por algo mais duro do que pau ou cipó. Pareciam cordas de pedra. Senti que havia muito sangue escorrendo dos meus tornozelos por causa das cordas – hoje sei que essas cordas se chamam “correntes”. E onde estava preso balançava muito. Parecia que tinha sido engolido por um animal gigante e bêbado. Ouço um som bastante alto de água. Será que estou no “grande lago?”.

Meu pai uma vez me disse, que as terras dos homens de pele branca, corpo peludo e cheiro ruim, ficava muitos dias e noites de travessia deste “grande lago”. Que outro motivo eles teriam para me capturar? Se eu fosse para lá com certeza jamais voltaria, era o que eu pensava. E mal sabia eu que estava certo. E minha mãe? Meu pai? Minhas irmãs e irmãos? Que fizeram quando desapareci? Procuraram-me. Ouvi várias lamentações em línguas que não conhecia. Também me lamentei e gritei. Gritei pelo meu pai, para que ele pudesse me ajudar. Meu grito apenas se somou aos vários gritos à minha volta e não houve nenhuma resposta. Minhas lágrimas serviram apenas para se misturar ao sangue que começava a coagular no canto da minha boca. Sinal de que haviam se passado muitas “luas” desde que eu acordei do meu desmaio.

Onde estava era muito escuro e não era possível ver a luz do dia ou qualquer outra coisa do lado de fora. Só o que ouvia eram gemidos de homens. Será que eles capturaram apenas homens? De repente abriram uma janela no topo. A luz do sol entrou furiosamente. Doía muito. E de dentro da luz saíram pessoas. Todas estavam com pedaços de pau e na ponta dos paus estavam amarradas coisas que se pareciam com tiras de couro ? “chicotes”. Eles falavam entre si uma linguagem muito estranha. Mais estranha do que dos outros povos que já ouvi. Pelo menos conseguia entender algumas palavras das outras tribos. Ao chegarem mais perto, me deparei com uma cena terrível. Consegui ver como eles eram. Sua pele parecia ter sido atingida por uma doença terrível. Sua cor era muito clara. Seu corpo coberto de pelos amarelados. Mesmo vestindo estranhas vestes fedorentas já conseguia imaginar o resto. Terrível. E o cheiro deles era indescritível…

Depois disso, muita coisa aconteceu no interior da embarcação. Os homens batiam muito em quem vomitava ou defecava. O que era inevitável devido à comida estragada e a pouca água potável que nos davam. Muitos morreram. De tempos em tempos íamos até a parte de cima do barco para tomar sol e sermos “lavados”. Nessas idas descobri que havia mulheres e crianças também. Eram presos separadamente.

Ao chegar a terra firme, fui trocado por pedaços de metal. E aqui estou preso novamente. Aprendi poucas palavras desde que fui apanhado na beira do rio. “Vendido” foi uma delas. Não sei exatamente o que significa. Mas acho que se refere a minha atual situação. Fiquei preso durante algumas luas. Só pensava em fugir. Fugir. Fugir.

Agora estou trabalhando nos campos da casa daquele que me comprou. Descobri que sou “escravo”. Na minha tribo havia escravos também. Minha própria avó era uma escrava. Não uma escrava “nossa”, que fazia o que mandávamos e ia para o tronco apanhar, ou tinha alguma parte do corpo cortada. Nossa tribo ficava no caminho de outras tribos que estavam guerreando umas com as outras. Então as mulheres eram capturadas. Eram partes do saque. Minha avó foi trocada por comida, e passou a fazer parte da tribo. Claro que isso não era motivo de orgulho para ninguém.

Cheguei à conclusão de que não adiantava fugir. Como ia voltar para casa?

* * *

Imagine o que milhões de escravos passaram ao se deparar como uma terra estranha, onde tinha vindo à força para trabalhar para pessoas que tinham sido cruéis ao ponto de comprá-los como se fossem mercadoria, sem se importar com a divisão de suas famílias. Mães eram separadas de seus filhos e irmãos de irmãs. Imagine as barreiras lingüísticas que todos enfrentaram. Por causa dessas barreiras, provavelmente muitos morreram no tronco. Suas manifestações religiosas tiveram que ser deixadas para trás. Seus nomes tiveram que ser esquecidos. Por muito tempo achou-se que os escravos nem tinham alma. Eram considerados inferiores até aos animais.

Como explicar esse drama para o homem branco de hoje em dia? E até mesmo para o negro? Como explicar que nossa indignação remonta a essa época? Mais de 400 anos atrás? Como explicar para o branco que, quando nos chamam de racistas por usarmos a palavra “branco” ao nos referirmos a ele, nada mais é do que um reflexo de agressões sofridas durante 400 anos? Se fôssemos racistas como dizem à boca pequena (ou à grande mesmo), não haveria tantos brancos fazendo samba, pagode, capoeira, candomblé, rap e outras manifestações de origem afro, que agora fazem, com toda a justiça que lhe são devidas, parte da cultura do povo brasileiro.

 

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