Consciência Negra, Mestiços e Morgan Freeman

Poucos sabem, mas a data é comemorada desde os anos 1960 e tem ganhado mais força ao longo dos anos, impulsionada por órgãos governamentais e entidades civis dos direitos dos negros. A data foi escolhida por coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. O Dia da Consciência Negra procura ser uma data para se lembrar da resistência do negro à escravidão de forma geral, desde o primeiro transporte forçado de africanos para o solo brasileiro (1594).

Mas ainda há muito que fazer em termos de conscientização, seja ela dos negros ou dos brancos. E por que não dizer dos pardos? O governo federal, por exemplo, considera os pardos (morenos, mestiços) como negros. Se estivermos falando de “Raça Negra”, termo considerado preconceituoso por muita gente, não há por que excluir os mestiços. Afinal, eles deveriam ser considerados outra “raça”? Claro que não. Nos Estados Unidos, mestiços de pele clara são negros e ponto final.

No Brasil não é bem assim. Negros (sem generalizar), os mais radicais, mais “conscientes”, tendem a considerar os pardos como brancos. Passei por várias situações desse tipo. Ao trabalhar para a Fundação Palmares, vinculado ao Ministério da Cultura, um desses “irmãos conscientes”, me chamou de amarelo! Estranhei e me senti mal. Se estivéssemos na China ela teria problemas. Nada disse e dei continuidade ao meu trabalho.

Nunca me considerei branco. Nem poderia, pois minha pele é bastante “morena”, não de sol, mas da mistura de cores entre meu pai e minha mãe branca. Tenho descendência de bisavó africana, livre, vinda do continente negro, berço da civilização, casada com bisavô português, vindo do velho continente. Sempre fui a favor das causas do povo negro, do povo brasileiro. Por ser pardo, sempre notei que os brancos não me viam como branco e os negros só passariam a me ver como negro se tivesse trabalho relevante na militância.

Acho que “meu povo” negro, intelectualizado, deve trabalhar em prol da unificação de negros e brancos (e pardos!) e não promover a separação. Unir e não dividir, pois aqueles que são divididos são conquistados com mais facilidade.

Claro que alcançamos um nível de entendimento sobre nosso papel na sociedade no que tange a eliminação dos preconceitos e promoção da cultura negra do que há muito não se via. As pessoas têm orgulho de dizer que são negras, estão atentas ao racismo velado (aquele que não é dito), conscientizam seus filhos sobre sua descendência e sabem que nossa história foi de muita luta, afinal foram 400 anos de cativeiro. Mas tudo isso deve ocorrer sem paranoia, pois não somos mais escravos. É certo que o trauma ainda permanece, mas hoje temos condições de luta mais favoráveis e mais informação.

Concordo com Morgan Freeman, ator americano, quando diz que não quer um Black History Month para lembrar as pessoas da importância do negro na formação da América. “Somos todos humanos, minha história é a história da América, acabaremos com o racismo, quando pararmos de falar nele.” Ou seja: chega de paranóia.

Morgan Freeman, não é apenas um ator. É um ator reconhecido e indicado diversas vezes ao Oscar por trabalhos, em sua maioria, relacionados ao combate ao racismo e à segregação. Entre os papéis mais marcantes, estão “Conduzindo Miss Daysy”, de 1989, onde foi vencedor do Globo de Ouro de melhor ator, no papel do motorista Coburn, que trabalhando para uma mulher branca e preconceituosa, estabelece uma amizade que romperia as barreiras sociais e culturais impostas pela sociedade racista, predominante no sul dos EUA. Detalhe: o filme foi baseado em fatos reais.

Freeman também interpretou Nelson Mandela em Invictus (2010) onde também foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante. Desnecessário dizer que, para interpretar tão bem, tais papéis, é necessário ao menos empatia com os personagens, o que em minha opinião, qualifica Freeman para exprimir a opinião que consta no vídeo do Youtube, onde o ator e produtor, explica e deixa sem palavras o experiente Mike Wallace, apresentador do programa 60 minutes, exibido pela CBS e falecido em 2012.

Mas aí, os radicais dirão que mesmo assim, Freeman não é qualificado para exprimir tal opinião. E ser negro não é qualificação suficiente?

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