Contos do Crime – No lugar errado (a versão da bandidagem)

Pois é mano. A gente veio da Ceí memo. Os pé de bota tão arrochando lá na quebrada. O troço tá feio, então viemo para cá. Mas viemo pra Ocidental também para conhecer os buteco, que dizem vendem pinga mais barato e tal. As minas são gostosa, tudo gata, sacou? Mas num dão muito mole não, parece o povo lá do Lago Sul.

Viemos de ônibus já aprontando. O motora ameaçou parar na polícia rodoviária e reclamar com os canas, que mandariam a gente descer. Prometemos que a bagunça iria parar e a viagem continuou.

Chegamo no bar, lá pras bandas da SQ 19, perto do mato, e ficamo tomando umas brejas com uns parceiros e umas doidas que encontramos no baú. Lá para as 10 horas da noite começou uma confusão com meu parceiro de crimes, ele puxou uma faca para um louco que tava se engraçando para uma das mulheres que acompanhava a gente. Aí o bicho pegou. Choveu de goiano para cima de nóis, Meu mano passou a faca no braço do cara. Isso assustou um pouco a galera e nós abrimos pra rua, saímos batido.

A gente se separou. Cada um pegou um rumo. Eu entrei numa festinha, devia ser de aniversário, sei lá. O som tava alto e a rua cheia de gente, inclusive dentro da casa também. Me misturei, tomei uns refri para disfarçar. Mas a doidura tava passando e fui pros fundo da casa enrolar um fumo. É sempre assim, brasileiro não pode nem mijar sozinho e nem acender um beque que aparece alguém para filar a parada. Logo apareceu um maluco. Filho do dono da casa. Ficou olhando e pensei que ia me dedurar. Chamar os home, né? Mas aí o cara pegou e “relaxa, mano! Tem mais aí? E eu “tem, mano, chega aí”. E acendemos mais um. O beque une as pessoas.

Acho que a essa altura meu mano tava longe. De repente tinha voltado pra Ceilândia sozinho. Na real, ele nem morava lá. Era de Sampa e tava passando um tempo na casa da tia em Taguatinga Norte. Colou comigo numa festa, lá na Chaparral e resorvemo formar uma parceria, só pra zoar memo. Ele falou que Sampa tava ruim pra ele, uns doidos queriam queimar o coitado por causa de divida e tal. Fumou e não pagou, essa coisas. Normal.

A bandidagem teu seu lado ruim. Talvez o pessoal fique puto ao ouvir isso, mas quem escolhe esse caminho é porque viu algo de bom. Bom para si mesmo, sacou? Tipo, não ter limites, ignorar as leis, fazer o que dá na telha. Tá precisando de roupa? Vai lá e pega. Escolhe uma vítima na rua e já era. Mas não tem aposentadoria, nem férias, nem nada. Ou você ou não é. É um vício mano.

Sartei fora da festa e fui atrás das boate. De repente dou de cara com o maninho que tinha vindo comigo. Desenrolamo umas idéias rápidas e decidimos roubar um carro para curtir e depois vazar. Mas num tinha muitos carros na cidade e tava difícil de escalar alguém.

Descendo uma rua qualquer, procurando um lugar para agitar qualquer coisa, estávamos na gala de aprontar, a verdade era essa. Todo mundo doidão quando de repente, a gente dá de cara com um casal subindo a rua vazia. O cara tava todo becado, tênis novo e tal. A mina era um charme, toda galega. O parceiro não pensou duas vezes, surpreendendo até a mim mesmo. Deu um chute nos peito do cara, do nada, o maluco sem entender: “qual é a sua mermão?” Num teve papo, a gente tinha que agir rápido. Sem arma nenhuma, partimos para cima do camarada na base da ameaça, dando o velho golpe da arma embaixo da camisa. Na real não tínhamos porra nenhuma, conforme relatei para os senhores. Mas, malandro que é malandro sabe que só trouxa reage quando tá com dúvida. Um caô bem aplicado e um monte de palavrões valem mais do que mil facas.

Mas o camarada partiu pro enfrentamento e a gente tava doidão de mais. Num tinha nem força para bater no cara. Quando falei que ia matar ele e meu brother segurou a mina, foi que ele parou. Nada na carteira. “Que porra é essa, o cara tá quebrado”. Sem grana, como eu vou pagar as velonas que eu fumei? Já mandei ele dichavar os tênis e o casaco.

Feito o serviço, saímos fora, alegres como pinto no lixo. Só depois que notei que a gente tava “andando”. A ordem nessas horas é correr. A cidade parecia um deserto, então a gente tava de boa. Ainda vimos uma viatura da policia civil passar, mas num deu nada.

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2 comentários em “Contos do Crime – No lugar errado (a versão da bandidagem)

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  1. Pura real. Eu que passei minha juventude no Rio, lá é mais raro topar com esses manés… no Rio, o crime é profissional, tem até código de ética! Trabalhador é respeitado, não se rouba na região do outro. A guerra lá é outra. Quem de vez em quando faz umas merdas dessas, por incrível que pareça, são os playboys, de classe média… que rouba pra bancar o vício. A bandidagem mesmo está a serviço dos traficantes, ou da polícia… são recrutados sem direito a dizer não tô afim. Ou vc aceita, ou morre, ou muda de favela. Agora, não vá pensando que vc pode andar de rolex por lá… rolex, até eu sou capaz de dar uma voadora nos seus peitos… isso pq nóis é amigo, mano rsrsrs

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