Contos do Crime

No lugar errado

 

Meu nome é Maicon. Moro no Entorno desde que nasci. São onze horas. O ano é 1990. Subo a rua com minha namorada, roupa nova, tênis novo e um colar bacana no pescoço. Chegando à esquina, decidirei para onde ir, se para comer uma pizza no Texas ou dar uma volta mesmo.

Rua vazia, mas não aparenta perigo. Morador do bairro desde que nasci nunca havia experimentado a adrenalina de um assalto. Nem queria claro. Há ainda algum movimento na pequena cidade. Naquela época, a cidade era relativamente tranqüila e contava apenas com a delegacia de polícia. Havia poucos roubos. Quem os cometia, geralmente eram conhecidos nossos e revendiam pelas redondezas mesmo, os produtos furtados das casas. Nunca assaltavam ninguém.

A namorada, loira, bonita, de braços dados comigo, estava radiante naquela noite sem lua. Seu tio era o delegado da cidade. Não tinha muita intimidade com ele. Achava ele meio paranóico. Sempre dizia que não falava com a gente na rua para que seus inimigos não nos ameaçassem. Um papo meio que de Super-Herói. Não pode revelar sua identidade para não por em risco sua família e amigos. Lia muito esse tipo de argumento nos gibis do Homem Aranha. Achava meio papo furado. A cidade, tipicamente de interior, longe das capitais, embora seja às margens da rodovia que liga a região do Entorno à Brasília, não parecia, ao menos para mim, ameaçadora a esse ponto. Se fosse, o delegado teria mais do que dois policiais sob seu comando para investigar os crimes. E a Polícia Militar teria um quartel mais próximo, ou um destacamento, algo assim.

Naquela época, funcionava uma boate na cidade, onde antes havia sido uma panificadora e antes ainda havia sido uma igreja. Ironia das ironias: onde antes oravam a Deus, agora saudavam o capeta em danças “demoníacas” e orgias mil, ao som dos bate-estacas da House Music e do Rock nacional e internacional. Foi uma declaração assim que ouvi de duas “irmãs” da igreja que passavam ao lado da boate, enquanto me dirigia para lá uma noite de sábado, enquanto que um coro de mil pessoas cantavam “porra, caralho, cadê meu baseado, porra, caralho, cadê meu baseado”, incentivadas por um DJ para lá de louco.

Lobão, Legião, Paralamas, Capital, Detrito e outras bandas “demoníacas” marcavam presença dentro do clube, única atração na cidade. Além das músicas internacionais, claro. Com suas letras, as pessoas viajavam, dançavam, piravam temperadas com álcool, cherinho da loló, maconha e outras substancias alucinógenas.

Estava a ponto de decidir se era para lá que seguiria, quando viravam à esquina, duas figuras que pareciam conhecidas. De repente um chute em meu peito me joga no chão e por um momento pensei que fossem dois vizinhos, conhecidos por suas brincadeiras de mau gosto e me preparei para dar o revide violentamente também.

Mas logo vi que não era ninguém que eu conhecia. Eram dois loucos que passaram a me encher de pancada e me empurrar para um portão. Revidei bastante, mas uma coisa me deixou intrigado. A todo o momento diziam que iam me matar, mas seus socos não eram fortes. Estavam doidões. O que me motivou a continuar enfrentando, mas um deles se desvencilhou e mandou que minha namorada continuasse andando e parasse mais à frente. “Se fizer alguma coisa a gente mata ela, mano”. Isso me fez parar e simultaneamente os dois meteram as mãos embaixo da camisa, segurando o que parecia ser uma arma. Seria de verdade? A dúvida fazia com que repetisse que não tinha nada, nenhum dinheiro. Eles puderam comprovar isso, me devolvendo a carteira, que realmente não tinha nada. Sussuravam: “sabe de onde nóis é mano? Da Ceilândia!” Repetiam como se fosse um mantra. Como se dissessem para si mesmos “viemos para cá, pois lá a concorrência é grande, temos que expandir nossa área de atuação e soubemos que aqui há um nicho de negócio inexplorado. Just Business, my friend.”

E o apelo “comercial” deu certo: levaram meus tênis M2000, meu casaco da C&A, uma correntinha e meu relógio. Retiraram-se tranquilamente, descendo as ruas, rumo a um tranqüilo e não patrulhado bairro da cidade.

Corri para casa de um amigo ali perto, uma das poucas que tinha telefone, pois orelhões eram raros. Liguei direto para a delegacia e aguardei a polícia que com certeza pegaria os “homens de negócio”.

Cinco minutos depois, vi a patrulha chegar à esquina oposto a que estávamos. Pasmei: deram meia volta quando não viram nada. Não se deram ao trabalho de subir a rua. Caso tivessem feito o desfecho seria outro.

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