Calango – parte 2

Durante a viagem, do Nordeste para o local da futura Capital, Nonato tinha tomado conhecimento pela primeira vez do nome do Presidente. Conforme Léa ia contando as histórias a respeito de Candangos que tinham ido pedir emprego pessoalmente para o Diretor da NOVACAP, o sertanejo recém-chegado reconhecia que esse homem já havia se tornado uma lenda de carne e osso por entre todos os operários daquele enorme canteiro de obras.

A impressão que se tinha ao chegar à Brasília naquela época era de que a cidade nunca dormia. Parecia que as máquinas tinham vida própria. Mesmo à noite, ouvia-se o barulho das construções. O tempo era curto, dizia o Presidente aos arquitetos, que diziam aos engenheiros, que diziam aos mestres de obra e esses aos pedreiros, serventes e toda aquela massa humana envolvida na construção do sonho de JK.

As pessoas também não paravam de chegar. Entravam nos paus-de-arara em suas cidades e seguiam pelas já perigosas estradas do Brasil daquela época. Estradas de terra onde em alguns pontos só se via mato. Chegando ao Centro-Oeste, as cidades eram escassas. Olhando-se pelas janelas dos ônibus ou das caçambas dos caminhões que se aventuravam a trazer quem quisesse vir, só se via cerrado de um lado e cerrado de outro. A interiorização do Brasil, que havia começado ainda nos tempos dos bandeirantes, continuava com a transferência definitiva da capital, conforme sonhara Dom Bosco.

Ao chegar à sede da NOVACAP, Nonato foi informado que Dr. Sayão não estava. Decidiu esperar, afinal de contas Léa o havia instruído para que agisse assim. Sentou-se numa pedra, próximo a porta de entrada da empresa. Logo apareceu um homem, com um volume na cintura que denunciava o que parecia ser uma arma e lhe dava ares de capataz, daqueles bem brutos.

– Ô peão! Pode ficar aqui, não rapaz! Cai fora.

– Embora?

– É! Vai lá pra pista de onde você veio, ô baiano.

– Tá falando daquela de terra?

– Só tem pista de terra por aqui. Vai andando rapaz!

Diante desse argumento tão persuasivo, o cabra foi sentar-se em uma pedra, lá na avenida que passava em frente à empresa. Pelo menos seria uma avenida um dia. Olhou para frente e viu algumas construções tomarem forma. A maioria eram apenas esqueletos. Olhou para o caminho de onde tinha vindo e viu a tal Cidade Livre, logo depois de uma pequena descida, depois outra subida e no alto de uma elevação, via-se a futura cidade tomando forma ainda. Na verdade vista de onde estava, era só um punhado de barracos ainda.

Jamais imaginaria que dali a 50 anos haveria uma enorme cidade, com lotes super valorizados em relação às outras cidades mais distantes. Que muitos dos candangos que trabalham naquelas obras da capital iriam continuar a morar por ali, formando famílias, que formariam famílias também, que se espalhariam por outras cidades do quadrilátero chamado Distrito Federal e mesmo em seus arredores, que mais tarde formariam o complicado Entorno.

Nonato cansado de esperar resolve pôr o pé na estrada e ir atrás do tal doutor. O que ele não sabia era que seria praticamente impossível achar o homem. Ele tinha saído em seu jipe e, portanto, poderia estar em qualquer lugar. Haviam várias obras. Mas o problema principal seriam as distâncias. Tudo em Brasília era longe. Principalmente para percorrer a pé.

Mas mesmo assim, o sertanejo pôs o pé na estrada. De onde ele vinha, as pessoas andavam a pé. Nem todos tinham carroça para percorrer as distancias da caatinga. Carros, poucos tinham visto na vida. Nas capitais, esses veículos eram comuns, mas nos sertões, ninguém tinha dinheiro suficiente para obter uma máquina daquelas.

Já estava escurecendo. Como era mês de maio, a noite caía mais depressa. Já passava das seis horas, Nonato estava longe, tinha andado bastante e estava muito cansado. Havia chegado onde estavam construindo a rodoviária. A obra era grande. As luzes amarelas pareciam refletir o sol que se punha. Chegou à construção e perguntou pelo doutor Sayão. Os operários disseram que ele havia ido em direção ao que seria um dia o aeroporto de Brasília e apontaram o caminho. Os operários ofereceram carona para ele, já estavam subindo nos caminhões que os deixariam nos diversos acampamentos onde residiam. Nonato preferiu seguir na direção do aeroporto que, naquela época era só a pista de pouso e uns poucos barracões.

A escuridão já tomava conta do lugar quando o sertanejo caiu dentro de um enorme buraco. Tinha resolvido andar pelas beiradas da estrada, pois pelo meio havia muita terra e lama.  Pisou em falso, o pé esquerdo escorregou na grama, torcendo-se. Como se estivesse suspenso no ar, os segundos pareceram durar horas. Tateou no ar, às cegas, por algo que pudesse segurar. Não encontrou nada. Precipitou-se verticalmente em direção ao buraco que as chuvas ou alguma máquina tinha deixado aberto. Não era costume as pessoas andarem a pé, à noite por esses locais. Ainda conseguiu agarrar-se na borda oposta do buraco. Mas mesmo assim caiu puxando mato e terra. Ao atingir o fundo, bateu a cabeça numa pedra e desmaiou.

Despertou e sentia muita dor. Tinha sangue nos olhos. Ainda era noite alta. Gritou por socorro. Ninguém. Gritou novamente e como resposta apenas os sons da noite. Queria apenas uma chance de se dar bem na vida. E tudo parecia acabar ali. O sangue que escapava de sua cabeça o fazia se sentir cada vez mais fraco. O frio parecia dobrar sua dor a cada minuto. Já não tinha forças. Fechou os olhos. Era o fim.

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