Calango

Calango é um conto que venho escrevendo desde 2001 e já passou por inúmeras revisões minhas.

Venho postergando sua publicação por achar que não está legal, não está bem desenvolvido ainda, enfim, coisas de perfeccionista inveterado e inseguro.

Pretendo publicar um pedacinho dele por mês, afim de aferir sua aceitação entre meus leitores habituais. Uns cinco mais ou menos. E quem sabe publicá-lo.

Calango conta a história de um retirante nordestino que vem para Brasília e vive situações comuns ao dia a dia da construção da capital e acaba se envolvendo em uma experiência, digamos, onírica. Pelo menos esse era o caminho que eu pretendia dar ao personagem Nonato.

Vamos ver como ele se sai na web.

CALANGO

Parte 1

 

Ao chegar ao cerrado, só via poeira. Aquela poeira vermelha que ele nunca tinha visto em sua pequena cidade do sertão nordestino. Lá se via apenas a terra rachada pelo sol implacável que parecia ser a fonte de todo o sofrimento do nordestino. Fome e sede eram uma constante em sua vida. “Se tivesse que comer calango era melhor morrer”, pensava. O trabalho era escasso e a fome abundante. Antes que ficasse pior, decidiu pegar um pau de arara e desembarcar no cerrado. Seu tio havia dito que muita gente, de outras cidades, tinha vindo para cá para trabalhar. Não faltava trabalho para pedreiros, marceneiros e eletricistas. Mas e para ele? Não sabia fazer nada dessas coisas. Misturar cimento e levantar paredes. Na caatinga as casas eram feitas de barro e pau. “Mas nóis aprende. Barro e cimento devem de ser a mesma coisa. É só colocar água e pronto. Igual nois faiz cus barro pra levantar parede. O que não falta também é gente para ensinar. É só percurar os conterrânio e tá tudo certo”. Nunca tinha saído da pequena cidade de Cabrobó do Norte. Vilazinha incrustada na caatinga. Nunca tinha vivido sem a seca. Nem a seca tinha vivido sem ele.

Nasceu e se criou na pequena de casa de taipa onde sempre morou. Seu pai havia ido embora do sertão quando ele tinha pouco menos de seis anos de idade. Sabia que aquele negócio de seca ia durar para sempre. Foi assim que a idéia de se mandar daquele lugar começou a amadurecer na sua cabeça. Desde pequeno que tinha ouvido falar que tal presidente queria construir uma nova cidade no interior do Brasil. Um lugar distante enfiado no meio do Goiás.

Sua mãe havia morrido. Dizem que de desgosto. O marido foi embora e nunca mandou notícias. Dona Francisca, não agüentando mais tanto sofrimento, resolveu ir ao encontro de Padim Ciço. Ainda agüentou um ano. Fazia mais calor do que o normal na ocasião, mas mesmo assim, ela não se levantava da cama. Sua filha mais velha, Marinalva, um dia perguntou:

– Vai levantar não, mãe?

– Vou não, minha fia. Vou fazer uma viagem muito longa hoje – respondeu Dona Francisca com a melodia característica do sotaque nordestino, onde cada palavra soa como uma nota musical. Uma nota de Forró talvez.

– Viajar como, minha mãe? Que horas?

– Seis horas da tarde minha fia. Arrume minha mala que eu vou viajar é hoje. Sem falta. Cuide de tudo para mim e avise Nonato para tomar cuidado na viagem dele pro Goiás.

Os céus ficaram nublados. Como se fosse chover. Mas não choveu. Nunca chovia. E Dona Francisca fechou os olhos e dormiu para sempre. Às seis horas da tarde. Em ponto.

Como ela sabia que Nonato pretendia viajar para o Goiás? Ele com certeza não havia contado para ninguém. Nisso aquele cabra era que nem o pai. Falava muito pouco. “Quem fala muito dá bom dia a cavalo”, dizia-se e levava-se ao pé da letra a lei, pois ditado para os antigos, tinha força de lei.

Marinalva, em particular, perguntou a Nonato se ele tinha planos de ir a algum lugar. Silencioso como um jegue que teima em não sair do lugar, Nonato nada respondeu. Não era de conversar com ninguém a respeito de seus pensamentos. “Como mãe podia saber se eu não disse a ninguém? Valei-me Nossa Senhora!” Pensou. Não poderia confirmar seus planos a ninguém. Não o deixariam ir. Pretendia sair escondido. Inventaria uma desculpa. Diferente do seu pai, que foi-se sem nem dizer adeus.

– Deixe de bestage, menina réia – disse Nonato com lágrimas nos olhos e afastando-se depressa. “É agora que eu vou-me embora mesmo. Sem minha mãezinha por aqui, não vou conseguir ficar”.

Foi assim que chegou ao cerrado. Fazia muito frio. Um frio que ele jamais imaginaria que existisse. Ventava bastante. Chamava-se Cidade Livre seu primeiro pouso. Não se sabia ao certo como chamar aquele lugar na época. Alguns chamavam de Cidade Livre. Uma coisa era certa: a Cidade Livre era de fato uma cidade. Não em termos de planejamento, mas em termos populacionais. Eram inúmeros barracos feitos de madeira. Tudo era de pau. O chão era de terra batida. Batida pelas máquinas. Não batida com os pés como na vila de onde viera. Isso amenizava um pouco a poeira que era levantada pelo vento e pelas máquinas que nunca paravam. Disseram que ele tinha que ficar em uma pensão improvisada, mantida pelas empreiteiras e construtoras para abrigar os peões recém-chegados. Depois de um tempo, o cabra tinha que arrumar um lugar para morar ou ia para a rua, conforme rezava as leis não verbalizadas de lugares pouco desbravados, que os moradores, em sua maioria homens sem letra e nem leitura, criavam para manter a ordem.

Não havia ruas. Apenas vielas. Mas o que assustava era a escuridão delas. Tão escuras que se algum bêbado caísse dentro dos inúmeros e enormes buracos que existiam, e não conseguisse gritar por socorro, com certeza passaria a noite lá. E isso acontecia com freqüência. Não havia muita diversão para a peãozada, então os bares e álcool servido eram bastante atrativos.

Naqueles barracões moravam famílias também, como Nonato perceberia algum tempo depois. Muitos, que vinham do nordeste, preferiam trazer a família para tentar a sorte no Planalto Central. Mas muitos outros vinham sozinhos, com a intenção de ganhar dinheiro e depois mandar buscar os filhos e a mulher. Entretanto, muitos acabavam por nunca mais voltar.

Finalmente ele chegou à tal pensão. Era o barracão de número 31. Alguns barracos eram numerados, outros não. Nonato só sabia ler os números. Conhecia dinheiro e só. Nunca havia posto os pés numa escola. Assim como mais da metade dos brasileiros nos anos 50. Bateu na porta e escutou uma voz de mulher alertando:

– Arrudeia pru causo que aí é us fundu, moço.

Deu a volta no barracão e encontrou uma porta mais larga. Deveria ser a entrada principal. Dentro tinha uma pequena salinha cuja divisão com o restante do local era apenas dois biombos velhos separados por um espaço que servia de porta. Dentro, podiam ser vistas as várias camas e beliches onde alguns candangos já se encontravam deitados. Havia uma garota sentada a uma mesa, logo à sua frente. Era a primeira mulher que Nonato via naquele lugar desde que chegou. “Tarveiz seja a única nesse lugar lascado da muléstia”, pensou.

No dia seguinte, após o café preto e o pão sem manteiga, disputado aos tapas com os insetos residentes da pensão, perguntou a moça como faria para arrumar trabalho, já que diferentemente dos outros candangos, não havia sido recrutado lá no Norte pelos agenciadores e sim vindo por conta própria.

– Dá licença, moça? Purum acauso vosmecê num sabe como se faz para arrumar trabaio por aqui, não?

– Olhe seu menino… Como é seu nome?

– Nonato.

– Olhe seu Nonato, tem vários tipos de jeito. Um deles é sair perguntando por aí pelas obras. Normalmente o pessoal que vem pra cá, já vem arranjado. Tô vendo que tu ta de gaiato aqui. Chegou ontem e já foi pegando a primeira cama vazia que encontrou. Ia chamar meu pai e te colocar para fora. Mas vi que você não tava bebum nem nada e resolvi deixar. Tá cheio de homem aí que vem para cá trabalhar só com a cara e a coragem. Não tem nem lugar pra ficar. Mas vou te dar uma colher.

– Muito agradecido, viu dona…

– Léa. Meu nome é Léa. Sou filha do moço que cuida da pensão. Tem um homem que é chefe do meu pai. Ele fica lá em cima. Uma hora a pé daqui. No escritório da Novacap, a empresa que está construindo tudo por aqui. Só que é muito difícil achar ele por lá. O homem tá sempre andando de obra em obra, fiscalizando. Quando ele manda alguém fazer, e esse alguém não faz, ele mesmo mete a mão na massa e faz.

– E como eu faço pra falar com ele então?

– Já falei menino! Vai lá na Novacap e fica esperando ele chegar. Fica de plantão na porta. Sabe como é ele? Não é igual esse homem que tem por aqui, não, tudo baixinho, troncudo e feio. Ele é um moço bem alto, forte que nem um touro. Parece um gigante. Bem apetrechado, que só vendo. Quando ele descer do jipe, fala logo com ele porque ele só anda rápido. O homem só anda correndo.

– O que qu’eu falo?

– Vixe Maria, mãe de Deus! Você parece que ainda está areado por causa da viagem! Deixe de ser abestado Nonato. Escute: teve um homem aí, na mesma situação sua. Ele chegou lá e pediu um trabaio também. Disse que não tinha nem o que comer e nem tinha almoçado. Pediu para ser motorista. Não tinha mais vaga. Todo mundo quer ser motorista aqui sabia? Tinha vaga para machado. Cortador de madeira. Deu o emprego pro moço e ainda deu o almoço.

– O cabra chegou e pediu com a cara e com a coragem? Consigo não.

– Te avexe, não. O homem é muito bom. Nem parece que é desse mundo. Nem parece que manda em tudo quanto é peão deste cerradão que é aqui. Por isso que ele foi escolhido pelo próprio Presidente.

– Qual é o nome desse homem, dona Lea? Preciso saber, senão, como vou chamar ele?

– Dotô Sayão. Bernardo Sayão.

– Nome esquisito.

– É só lembrar de saia grande. Sai – ão.

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2 comentários em “Calango

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  1. Olá André. Gostei muito do seu conto e acho bem legal a ideia de publicá-lo em folhetins mensais, resgatando assim a forma com que vários escritores renomados escreviam.Parabéns e acho que você tem tudo para ser também um desses escritores. Um abraço e esperarei a continuação desse capítulo.

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