Icterícia, planos de saúde e leite de maracujá

A icterícia é um evento comum em parte dos recém nascidos. Nem todos são acometidos desse mal corriqueiro. Não chega a ser nem uma doença, segundo o Dr. Rafael, médico do HCB. Mas nem por isso deixa de inspirar cuidados.

Ao detectar a criança com a pele amarelada, o branco dos olhos também amarelos, procure um médico imediatamente, pois a bilirrubina, nome da substância amarela que o organismo não consegue metabolizar, acaba por impregnar os órgãos, levando a uma série de problemas, inclusive paralisia cerebral.

O que seria uma ida ao médico para levar a minha filha para submetê-la a um tratamento de luzes – fototerapia, acabou por tornar-se uma saga e um desafio à paciência de qualquer monge budista. Não pelo problema em si, mas pela incrível desconexão dos planos de saúde com os hospitais, esses com seus pacientes e entre tudo isso, a total falta de preparo daqueles que deveriam encaminhar tudo, sem deixar o paciente a mercê desses insanos: os funcionários responsáveis pelo atendimento no hospital.

Ao chegarmos ao hospital, fomos informados pela médica que a criança deveria ser internada para receber o que eles chamam de fototerapia. Após um dia de internação, colhemos o leite materno e o levamos acondicionado em uma caixa térmica para que permanecesse congelado e não perdesse seu poder protéico. Aproveitamos para levar duas garrafas de suco de maracujá, para que minha esposa pudesse se hidratar enquanto estivesse no hospital. Tudo devidamente identificado. O suco em duas garrafas próprias para suco e o leite em um recipiente transparente, onde a cor branca era evidente até para quem não conhece leite.

Quando chegamos ao hospital, entreguei a caixa para a técnica em enfermagem e travamos o seguinte diálogo:

– Moça, eis aqui a caixa térmica com o leite. Há duas garrafas de suco aí, junto com o leite. Devolva-me para que minha esposa possa bebê-lo, depois que recolher o leite, ok?

– Sim senhor, claro.

A moça, muito solicita, parecia um pouco atrapalhada e disse que era a primeira vez que trabalhava no horário diurno.

Senti-me um idiota dizendo isso, pois esses profissionais, acostumados a colher pessoalmente o leite das mães, conhecem o líquido materno melhor do que qualquer um. O cheiro e a cor são inconfundíveis. Mas não para aquela jovem.

Ao retornar, ela nos mostra uma garrafa enorme, com liquido amarelo e outra pequena com dez por cento de leite, branco e congelado e oitenta por cento, amarelo.

– Aqui está mãezinha, seu leite, colocarei na geladeira, tá?

Eu e minha esposa nos entreolhamos: “esse leite não é meu”, disse, olhando a enorme garrafa amarela à sua frente.

– Ei, isso não é o suco?

– Suco? Que Suco?

– O suco que disse a você que tinha nas duas garrafas plásticas.

…Silêncio mórbido e constrangedor…

– Você não sentiu o cheiro de maracujá?

– Ah, mas tem mãe que tem o leite bem amarelo. Se bem que o cheiro de suco de maracujá é forte, né, mesmo de máscara… disse para si mesma, a desnorteada enfermeira.

Meu Deus, pensei, se não estivéssemos aqui, essa louca daria suco de maracujá para uma criança de cinco dias de idade tomar! Isso por que estamos em um hospital particular! Parem o mundo e expulse essa louca daqui!

Os hospitais do Brasil estão um caos. Não apenas os públicos, mas os particulares também. Os próprios médicos alertam para que os pacientes não fiquem no hospital, sob risco de se infectarem com a tal superbacérica.

Os planos de saúde hesitam em autorizar atendimento sem motivo aparente, enquanto as pessoas morrem nas filas. E o motivo é simples: falta de preparo daqueles que deveriam ser treinados para resolver conflitos e tomar decisões. É cada vez maior o número de jovens bonitinhas nas funções de atendimento, com suas caras blasé, pensando no namorado, achando o mundo gira em torno delas, não levam o trabalho a sério e são cada vez mais inexperientes nas funções.

Mas isso parece que acontece em todas as áreas: desde delegacias, hospitais, escolas e até igrejas. A falta de compromisso com a informação, a ética e os usuários e aterrorizante.

 

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