Entrevista DJ OCIMAR

DJ Ocimar
DJ Ocimar | Foto: Márcio Vianna

Conversamos com o pioneiro do Hip-Hop no DF e Entorno, DJ Ocimar, de 33 anos, morador de Ceilândia, que sempre batalhou pelo engrandecimento da arte dos pratos em movimento (Toca Discos, para os leigos).

Sempre sorridente, o que sua baixa estatura esconde é o grande talento para mixar músicas e também produzir a maior festa de Hip-Hop do Centro-Oeste conhecida como Da Bomb.

Ocimar falou ao editor de cultura do Jornal Ocidental sobre a dificuldade de realizar uma festa do porte grandioso que é a festa Da Bomb, que como o nome diz, é uma bomba. Mas quando explode, todos ficam satisfeitos com a dedicação com a qual foi preparada. Muita música black, vários ambientes, B-boys, DJs, MCs e muita gente bonita circulando.

Falou também sobre a divulgação da marca Da Bomb e do Curso de DJs, ministrado em sua loja, no Conic. Confira esse papo, que rolou em sua loja/estúdio.

Quem é o DJ OCIMAR?

É como diz aquela frase do Orkut. Lá eu coloquei assim: sou um pequeno ser humano no meio desse tanto de gente grande (risos). Pô, eu sou um “correria” aí, igual muita gente da periferia em busca de estabilidade, de ter uma família bem estruturada. Ainda não sou casado e nem tenho filhos, o que é bom, fica mais fácil de correr, ao contrário de muitos irmãos, que já tem família e a vida é mais trabalhosa pros caras. E nessa história, com a cultura Hip-Hop, acabei me profissionalizando e sou um dos poucos que ganham dinheiro com isso, com o que gosto.

Então conte um pouco dessa sua história no Hip-Hop:

Comecei como a maioria, indo às festas de Hip-Hop, vendo os DJs tocando, a galera dançando, sentindo aquilo que você sente quando ouve a música Black. Então, parei e pensei: é isso que eu quero pra mim, curtir e viver isso. E vendo que o negócio era marginalizado pra caramba, decidi que ia fazer parte dessa cultura, para fazer com que um dia ela deixasse de ser vista assim. Comecei na Ceilândia mesmo, sou do tempo que o Break estava na mídia na TV, nas propagandas, nas novelas, nos programas de auditório, iam grupos de Break na TV, nos anos 1980, um dos nossos grandes ídolos era o Michael Jackson, todos já sabem o que aconteceu com ele atualmente e foi daí que surgiu tudo.

Como descobriu que queria ser DJ?

Foi nas festas, nos bailes e tal que surgiu o interesse pelas musicas que tocava, às vezes ia aos bailes e não tocava as musicas que eu gostava, então ficava mais pertos dos DJs, ficava por perto perguntando pros caras, às vezes ia pras festas e ficava mais do lado dos DJs e os caras “pô, fica só ai, nem curte a festa, parece que gostou do cara” e eu “gostei do cara não, gostei dos equipamentos dele” (risos).

Quem te influenciou na profissão:

Ah, no tempo do Quarentão tinha o Rubão, que tocava lá, eu ia lá ver, lá na nossa quebrada no P Norte tinha os caras que tinham equipes de som e nos lazer a gente ia lá ver os caras tocando e no rádio, o ícone de todos, Celsão. A gente pirava com as mixagens do cara, e ai a gente foi atrás de saber como era essa “arte” de mixar, comecei a comprar os discos, aquela coisa toda, e hoje em dia eu tenho a escola de DJ que em dois meses, 40 horas, a pessoa aprende a mixar e também as técnicas dos DJs e naquele tempo eu passei anos por que não tinha um curso e depois quando apareceu era muito caro e não estava a nosso alcance, então ficávamos perguntando pra um e outro, vendo os vídeos, em VHS que o pessoal trazia de fora, com os campeonatos de DJ e as festas lá fora, e fomos nos informatizando.

O que recomenda para quem quer ser um bom DJ?

O que costumo falar pros meus alunos é tocar a música certa na hora certa e no lugar certo. Isso aí conta muito. A técnica e a mixagem fazem parte de um conjunto. Mas às vezes a música certa fala mais alto do que uma mixagem. Já passaram uns 500 alunos ou mais, ainda não contei direito, qualquer dia vou fazer essa contagem, mas já passaram muito mais. Eu comecei em 1997 e desde então, alguns alunos que passaram por aqui, hoje já são profissionais e tocam na noite por aí e fora de Brasília, tem nome conhecido e isso é bom pra mim, é bom pro curso.

O que falta para Brasília se destacar no cenário Hip-Hop no Brasil?

Não falta muita coisa não. Brasília sempre caminhou sozinha, independente de outros estados, HIP-HOP sempre foi forte aqui, sempre teve pessoas de atitude, são pessoas que nunca fizeram nada pra se destacar em SP, porque SP tem sua realidade, BSB tem a sua realidade, aqui é o segundo mercado de HIP-HOP do Brasil, os Rappers e os CDs que falam daqui, a galera que consome é daqui, as festas são feitas pela galera daqui, os melhores B-boys do Brasil e do mundo são de Brasília, e agora estão vindo aí as marcas próprias e então completa tudo. Os nossos produtores estão aqui, DJ Raffa, sem comentários, tem o Ariel, temos o Duck Jay que vem se destacando muito também, já tivemos o Diogo, o Régis, são pessoas que produzem discos bons, engraçado que tem um público fora que consome muito DF que é o Nordeste. O Nordeste e o Centro-Oeste consomem muitas musicas daqui.

Já falamos dos DJs e produtores de Brasília. Quais são os principais personagens no cenário brasiliense e do Entorno que se destacam?

Temos os clássicos, Gog, Jamaika, X e o Rei, já fazem parte da historia de Bsb. Espero que não tenha esquecido ninguém. E na Nova Escola, temos o Vadiuslocus, temos também o pessoal do freestyle que tá bom pra caramba, o VanLee que tá ganhando todas, o Coalhada. Como o mercado tá muito grande aí, tem um monte de gente que nem conhecemos às vezes o cara vem na loja, e a gente nem sabe que o cara já se destaca no Movimento, que representa bem no Movimento. Com certeza tem gente boa por aí que nem chegou ao meu conhecimento.

O HIP-HOP tá muito em alta na mídia em geral. No passado era um Movimento marginalizado e agora os jovens a partir de 10 anos ou menos, já acalentam o sonho de ser Rapper, DJ e B-boy, se vestindo igual e agindo como seus ídolos. Você acha que isso representa uma evolução?

Evolução! Veja bem, hoje em dia os projetos sociais, do governo e de entidades tem o HIP-HOP como socialização, uma forma de educar o jovem da periferia, eles viram que não tem para onde correr, o pessoal gosta mesmo de rap, de break, de graffiti, então através disso, estamos socializando a galera, imagina no meu tempo se tivesse projetos assim? Hoje

tem curso de DJ de graça, de Break, até oficina de Rap, tem de graffitti, é uma grande evolução ser reconhecido pelas autoridades. Imagina você ser parado pela policia e se identificar como sócio-educador? “Dou aulas de Rap, de Break, de DJ”. Os caras já ficam naquela, te respeitam. Antigamente você dizia que era Rapper, que era B-boy, ficava aquela impressão de ser malandro, hoje em dia não. O Hip-Hop tem que se popularizar, tem que

virar marca, se não, não cresce. Acho que essa parada de underground, de não se vender, você não pode deixar a mídia te usar, você tem que usar a mídia a seu favor ou até mesmo criar a sua própria mídia.

Como surgiu a festa Da Bomb?

Foi uma idéia do DJ Dog Daia, a gente fazia festas em boates, onde rolava Dance, no tempo, e muitos que iam curtir Dance, gostavam de Hip-Hop, tínhamos uma sessão de Hip-Hop nessas boates e vimos que a maioria gostava, então, vamos fazer uma festa de Hip-Hop

porque a galera tinha aquele medo de ir nos Bailes de Hip-Hop, mesmo sem nunca ter ido, ouviam falar de alguns fatos isolados e tinham medo, não tinham muita liberdade de ir. Então resolvemos fazer essa festa em outra boate que não tivesse problemas, onde as pessoas tinham outra visão, outros olhares e não era muito discriminado. Começou a dar certo. Foi em 1995 que surgiu e a galera começou a ter mais acesso, então juntamos os

públicos e começamos a trabalhar essa galera, esse publico que queria curtir em outro ambiente.

Qual foi o momento mais marcante ou curioso na historia da festa?

Foi recente, quando trouxemos o Afrika Bambaataa, o pai do Hip-Hop que veio tocar numa festa Da Bomb. Ou seja, foi um grande marco, que nos incentiva a trazer mais gringos, mais Rappers de lá de fora. Não tem pra onde correr, os caras que falam “ah os gringos e tal”, então não façam Hip-Hop, porque a principal influencia do Hip-Hop são os americanos. O Hip-Hop nasceu na Jamaica, mas foi desenvolvido lá (nos EUA).

Quais são os novos projetos pra festa? Alguma mudança?

A idéia é trazer mais atrações gringas, por enquanto é só um projeto, mas a meta é essa. Trazer os ícones do Hip-Hop atual, quem sabe um Snoop Dogg da vida, né? Mas se não rolar, em Brasília tem muitas atrações legais. Infelizmente em Brasília não tem ainda muitos locais especializados nesse tipo de evento, além de ver as atrações e a estrutura da festa, acabamos por fazer quase sempre na Tenda da UnB, que é um ambiente alternativo, tem um bom espaço, mas que infelizmente não proporciona um bom acesso para quem mora na Periferia. Talvez a próxima seja em outubro. Fazer um evento assim dá trabalho, fazer as pessoas sair de casa, pagar um valor “x”, se divertir com segurança, sair falando bem da festa, agradar, zelar pela integridade dessas pessoas, é difícil trabalhar com gente.

Fique a vontade para mandar um salve pra todos que curtem o Movimento em Brasília e Entorno:

Vou mandar um salve então pra galera da Xurupita (risos). Vou mandar um salve para toda a galera que conhece nosso trabalho e pra quem não conhece também para vir conhecer e saber que a nossa intenção é sempre a melhor possível. E muita paz pra todos.

Publicado no Jornal Ocidental de abril de 2010

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3 comentários em “Entrevista DJ OCIMAR

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  1. Olá, sou de Londrina , tive a oportunidade de conhecer o Dj. Ocimar em 2005, quando morei em Brasilia, através do Adalberto. Quero parabenizá-lo pelo maravilhoso trabalho.

    Parabéns a todos dessa área.

    Um grande abraço.

    Curtir

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