Viagem ao fundo do ônibus

Antigamente, quando perguntavam pra você:

– Quanto tempo leva da Cidade Ocidental pra Brasília?

Você respondia:

– Cerca de uma hora de ônibus, sem parar tanto em paradas ao longo do trajeto, como acontece com vocês aqui do DF.

– Mas não é cansativo?

– Né nada! Os ônibus são confortáveis, acolchoados, temos uma rodoviária no centro da cidade, as pessoas respeitam os assentos preferenciais de idosos e deficientes, é tudo uma beleza, vale a pena morar no entorno.

Hoje quando fazem as mesmas perguntas:

– Levo de cerca de duas horas para ir e duas para voltar. Ou seja: passo metade do dia dentro de ônibus coletivos cheios, caindo aos pedaços, com pessoas me empurrando mesmo quando estou sentado em lugares que não cabem uma pessoa de baixa estatura, com pernas curtas, o que dirá pessoas altas.

Partindo desse raciocínio, conclui-se que o usuário dessas sucatas ambulantes, muitas vezes disfarçadas de novas, passa metade da vida dentro de ônibus que vêm e vão de suas casa para os locais de trabalho e/ou vice-versa! Mas o que mais chama a atenção, não são só os preços altos (tanto aqui quanto no DF), a frota caindo aos pedaços, onde diversos ônibus quebram o tempo todo, deixando seus usuários no meio da rua, impossibilitando sua chegada ao trabalho e prolongando sua estadia involuntária dentro dessas máquinas perigosas, são mesmo as pessoas que utilizam esses bólidos.

Sim, meus leitores! As pessoas, talvez pelo nível de estresse se esqueçam “momentaneamente” de coisas básicas, desenvolvidas ao longo da jornada humana pela essa terra de Deus (educação seria uma delas).

Diariamente nos deparamos com situações absurdas e constrangedoras que nos fazem perguntar: há necessidade de tais atitudes? Segue algumas cenas.

Cena 1

Dezoito horas. Final de expediente para a maioria das repartições no Plano Piloto. As pessoas praticamente correm para pegar a condução de volta para casa, pois sabem que nesse horário os engarrafamentos são constantes. Geralmente, quando os ônibus se atrasam, formam-se de duas a três filas. O chato é quando chegam os “espertos” e passam a cortar fila lá na frente na cara dura. Tolera-se uma pessoa cortando fila. Só que chegam vários e cortam na frente das filas quilométricas não contribuindo para a organização e prolongando a estadia na rodoviária daqueles que chegaram primeiro. Seria esse o jeitinho brasileiro?

Cena 2

Desrespeito. Ônibus chega na rodoviária. Atrasado. Outro encosta ao lado em local perigoso. O cobrador põe a mão pra fora e acena para que os usuários entrem. Forma-se uma bagunça generalizada onde todos saem correndo para entrar no veículo que se encontra ao lado do outro em situação perigosa. As pessoas se atropelam para entrar no carro enquanto o cobrador age como se estivesse de férias. Outro absurdo que deve ser evitado.

Cena 3

Na rodoviária os idosos se aglomeram na porta do ônibus para tomarem seus assentos preferenciais. Um jovem conhecido da cidade está no começo da fila. Na pressa para entrar, ele decide não esperar a senhora entrar primeiro e os dois se bloqueiam na porta como em um filme de comédia. Para acabar com o impasse ele dá uma cotovelada na velha que cai fora do ônibus. As pessoas se horrorizam e o rapaz parece alterado e grita muito com todos dentro do carro. A velha senhora, como uma Xamã indígena, solta diversas pragas como quem amaldiçoa o deplorável ser. Fico preocupado com aqueles olhos sexagenários que parecem esfaquear o rapaz com a visão. Como que prevendo algo, mais adiante acontece o que eu temia.

Cena 4

Lotado!
Lotado!

Ônibus sai da rodoviária. Parece que o motorista está nervoso com algo. Entra no eixo monumental de forma perigosa. No eixinho bate na cerca das obras do Metrô. Na Candangolândia uma carreta arranca o retrovisor do baú, por este estar parado distante da parada. As pessoas (inclusive eu) se desesperam. O motorista segue. As pessoas se recusam a permanecer no ônibus e o motorista se justifica dizendo que a marcha do carro está com defeito. Ele sugere que sigamos direto em situação especial. Graças a Deus chegamos inteiros. Depois desse dia cheguei a conclusão de que nossa situação é mesmo alarmante. E a velha Xamã era só um ingrediente a mais nessa insanidade toda.

Isso foi o relato de apenas um dia, de apenas uma pessoa. Se você tiver mais histórias inacreditáveis como essa, mande para nós.

theking.andré@gmail.com.

Artigo também publicado no site da Fundação Palmares.

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Um comentário em “Viagem ao fundo do ônibus

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  1. Pois é, Professor! Não é mole, não…dá pra adicionar aí uma penca de motorista q não para no ponto ou q são grosseiros o tempo todo. Aqueles outros q agora podem ligar seus aparelhinhos de som em alto volume durante a viagem (Isso são muitos de uma só vez), e por aí vai!!! É um absurdo, mas o povo parece que precisa ser reeducado! Uma reciclagem de idéias! Belo post!!! Hugz…

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